domingo, janeiro 31, 2016

Os novos velhos


Obedeço muito pouco a critérios rígidos. Gosto da minha liberdade talvez porque ela me foi difícil de obter. Primeiro foram os Pais. Depois foi o marido, que sendo um homem de profunda cultura, tolerava bastante mal quem não pensasse como ele. Tudo era subtil, nada era forçado. Mas, à distância dos anos, penso que essa era, afinal, uma forma de impor os seus pontos de vista, ao deixar-nos com a sensação de que éramos inúteis ou medíocres por não pensarmos da mesma forma.
Hoje tudo me aparece muito claro mas, na altura, foi causador de muito sofrimento e de uma falta de confiança em mim própria, de que só recuperaria com o divórcio.
Na altura, sendo o seu grupo considerado progressista, eu era a reaccionária de serviço. Hoje rio-me porque os que ainda estão vivos, parecem-me de um reaccionarismo atroz, enquistados nas suas glórias passadas e incapazes de acompanhar o mundo actual. Pensam como velhos de um Restelo que já não existe, não percebem as novas tecnologias, mas continuam a insistir em moldar o mundo à sua imagem e semelhança. E ficam felizes quando alguém se lembra de os convidar a dar a sua opinião. Enfim, existem, falam quando não devem e calam quando deviam falar.
A estes opõem-se outros, igualmente velhos, mas que parecem não ter idade. Acompanham as transformações da sociedade em que vivem e não abdicam do gosto de se transformarem com ela. Parece que não têm idade e o seu relacionamento com os jovens só mostra como estão vivos. Sabem fazer silêncio quando é preciso e sabem fazer-se ouvir quando é necessário. São os novos velhos. Que constituem, inegavelmente, um dos pilares do nosso mundo actual. Que os não despreza e antes os sabe apreciar. É um dom poder ser-se assim!

HSC

7 comentários:

Madalena Amaral disse...

Tão feliz fico ler o que escreve (risos) Porque não pretendo parar no tempo. Deus me livre!
Abraço.

Virginia disse...




Senti exactamente o mesmo, embora o meu grito de libertação tenha sido mais cedo, mesmo dentro de um casamento que já nada me dizia. Hoje vejo a diferença, sinto-me a anos luz daquela mentalidade retrógrada, incapaz de ver a beleza do mundo, fechado numa caixa que é só dele e em que mais ninguém ousa entrar. Boa hora em que ousei sair da teia, já tarde. Hoje vivo como quero e, se não fossem as obras no 5º andar que me atazanam há duas horas, ainda estava a dormir o sono dos anjos. Infelizmente há quem goste de mudar a casa periodicamente. Maldito seja quem inventou os black and deckers!!! :(

Boa semana, Helena.

Anónimo disse...


Helena
Liberdade, autoestima, independência são essenciais.
Existem coisas, que só com ajuda profissional conseguimos ganhar, por isso hoje dou tanta importância à analise e psicoterapia.
Existem maridos,mulheres, politicos e muitos que ficaram parados no tempo. Vivem do "antigamente", oiço tanto antigamente era assim, as mulheres não faziam nem faziam nem metade do que fazem. O triste disto, é que são algumas mulheres que ainda pensam assim. O importante é sabermos evoluir com o tempo, existem novos velhos, mas existem novos que são velhos.
Achei curioso dizer, que só conquistou algumas coisas depois do divórcio, vejo-a determinada, tão ciente das suas ideias que não a via de outra forma.
Existem males, que despertam outros bons. Conhecer-se a si mesmo, desbrava caminhos numca percorridos e prazerosos.

Carla

Madalena Ferreira disse...

Olá Dra.HSC,

Espero que esteja melhor e com força para os novos desafios.
Quanto ao texto, pouco mais há a dizer.No entanto custa-me o estigma de "velho", não pela idade mas porque a sociedade assim o entende. Começa-se a ser velho muito cedo, principalmente quando se vai para a reforma.Os mais novos - alguns - até não dizem velho, mas sim "cota" de um modo depreciativo!
Muitos novos em idade, são mais velhos, que muitos velhos em idade!

Boa semana,

Helena Sacadura Cabral disse...

Carla
Fui, felizmente, muito a tempo de me construir. Casei com 21, tinha uma educação boa, mas clássica. Devo ao meu ex marido e a esses dez anos de casamento, muito da abertura que hoje possuo. Nunca me cansarei de o agradecer.
Mas - há sempre um mas - só tive consciência daquilo de que eu era realmente capaz, depois dos 30, quando me separei. Aí, sim, renasci. Fiz-me. Até lá o modelo, o ser especial, o excepcional, enfim o "génio" era o consorte. Claro que todos os que não alinhavam por esse padrão eram vulgares!
Dos 30 aos 45 aprendi a viver, a ter orgulho em mim, a ter prazer em ser como era e não como os "outros" gostariam que eu fosse.
E, finalmente, depois dos 45 e exceptuando a morte do meu filho, tive o gosto de saber o que era ser feliz, numa altura em que a maioria até já se esqueceu disso!

Anónimo disse...

É difícil determinar o que são os velhos.

Com a sua perspicácia e sensibilidade HSC foi directa ao coração do tema «ser velho hoje».

Hoje, contrariamente ao passado, os velhos vivem num novo espaço de liberdade e o modelo velhice não é estático, mas tem de inventar-se todos os dias. Os velhos como grupo social são uma construção cultural criada a partir da 2ª metade do séc. XX.

Nas sociedades orais, o velho era uma «biblioteca viva», um «historiador», um «especialista do passado». Por serem poucos, os velhos eram rodeados de atenção, mas tinham menos liberdade, porque tudo o que faziam deveria ser exemplar.

Na sociedade da escrita, esta valorização do velho como portador das memórias duma cultura, desaparece.

A maravilhosa esperança de vida, por outro lado, retira aos velhos a sua condição de raridade e de valorização. Os velhos hoje representam uma elevada percentagem da população, que tende a aumentar. Sofrem de exclusão, sobretudo os que não têm poder económico.

Ser velho hoje só pode ser REINVENTAR-SE.




Anónimo disse...


Helena
Agora entendi, mais explícita não pudia ser.
Sorte dos que, renascem, tomam consciência do que são capazes, aprendem a viver, têm a coragem de sair fora dos carris, nem sempre o caminho a direito, é o mais certo, sorte dos que enfretam velhos do Restelo.
Também renasci nestes últimos 3 anos, ainda estou em aprendizagem, ler o seu blog também têm sido uma escola para mim. Obrigado.

"Nunca tive um Natal especial nem um presente especial. Tenho tido sorte na vida.
Que como sou uma pessoa com sorte na vida sempre tive Natais e presentes especiais. Mas trabalhei bastante para ter sorte."
Jaime Milheiro

Carla